quarta-feira, 27 de junho de 2012

Recordando o gosto pela História em meio à correria...

Ainda lembro com saudosismo de quando li a obra Carlos Magno (São Paulo: Estação Liberdade, 2004), monumental estudo do medievalista Jean Favier sobre uma das maiores pesonalidades da História do Ocidente Medieval, lá pelos idos de 2004, antes mesmo de entrar na faculdade... passava dias inteiros devorando o denso livro, especialmente em finais de semana e nas horas de hotel durante viagens. Me afieçoei pelo livro e me interessei pela análise, muito embora minha capacidade de reter a complexidade do estudo de Favier ainda fosse bastante limitada. Hoje, ao repassá-la brevemente para colher algumas informações sobre Carlos Magno para colocar na dissertação (haja vista Álvaro Pelayo erigi-lo como um de seus modelos de monarca em seu Speculum Regum (há uma edição em 2 volumes, provida do texto orginial latino e da tradução portuguesa de Miguel Pinto de Menezes - Lisboa: Instituto de Alta Cultura: Vol. I-1955 e Vol. II-1963), redigido entre 1341-1344, portanto alguns séculos já distantes do grande rei franco) me surpreendi com a beleza e profundidade dessa obra! Me deu vontade de devorar este livro novamente e, de fato, o farei assim que concluir meu mestrado.
O período carolíngio sempre me fascinou e foi ele quem fez com que eu entrasse decididamente para a área de Medieval durante a faculdade. Pois bem, os historiadores tem certas ligações afetivas com alguns aspectos do passado que os cativam de forma especial. Talvez seja esse gosto que impulsione sua curiosidade e ação em busca da pesquisa exaustiva de fontes e análises historiográficas...

O gosto pela História, que cultivo desde criança (o que seria um assunto para um outro post...) potencializou-se bastante nos anos de Ensino Médio, quando já estava decidido a prestar vestibular para História, tanto pelo seu aspecto docente quanto pela área da pesquisa. Ambos me fascinavam... a curiosidade e a paixão pela História humana me moviam a uma pesquisa sempre constante, sempre achava-me lendo sobre algo. Mas também me atraia a idéia de ensinar e transmitir o conhecimento adquirido... recordando aquilo que diz Dante Alighier de que o homem deve ser como uma rosa, espalhando para fora o perfume de seu interior ("Convém que o homem se abra como uma rosa que não pode permanecer fechada, e o perfume que ela gerou em seu interior deve se espargir." - Convívio, IV, XXVII). Nesse sentido, creio que  sempre mative aquela espírito da criança que se maravilha diante das mais pequenas e simples descobertas e deseja compartilhá-las com todo mundo. Por isso sempre gostei de conversar sobre História e compartilhar o saber com os demais... mas continuemos.
 
No período do Ensino Médio, minhas economias foram investidas em materiais sobre História... algumas compras revelaram-se futuramente pouco acertadas, como algumas revistas não-acadêmicas sobre História (especialmente ligadas a Superinteressante). Algo compreensível em um adolescente ávido de saber mas que está buscando material de pesquisa sem muito direcionamento... mas, algumas compras feitas em meu setor eternamente favoritor dos Shopping Centers (ao lado dos Cafés, claro...), as Livrarias, foram muito bem acertadas e as levei para a minha posterior formação. Destaco, além da obra monumental de Favier já anteriormente citada, dois livros:
* Bizâncio: A Ponte da Antiguidade para a Idade Média (Rio de Janeiro: Imago, 2002) de Michael Angold. Uma das primeiras aquisições. Era, se bem me lembre, num período de férias (não recordo se de verão ou inverno...) e havíamos aproveitado para fazermos uma série de consultas de chekcup... por isso,m acabei devorando o livro rapidamente, lendo-o com intenso gosto nas salas de espera dos consultórios. Enfim, o livro faz um esboço da História da cidade de Bizâncio/Constantinopla desde sua fundação até os enfrentamentos entre bizantinos e normandos no século XI, mostrando a História dessa cidade e a relação do Império que dela emanava com outras regiões e culturas como uma forma de entender as transformações que marcam a passagem do mundo antigo para o mundo medieval.
História da Idade Média: Textos e testemunhas de Maria Guadalupe Pedrero-Sánchez (São Paulo: Editora da Unesp, 2000). Comprei-o também por volta de 2004, interessado pela sua intensa compilação de extratos de fontes e documentos de vários lugares e épocas do medievo. Mal sabia eu que, como diria-me um saudoso professor da Faculdade, "o estudo das fontes é indispensável para o ofício do historiador". Fiquei surpreso e contente ao ver esta obra ser escolhida como manual das aulas de História Medieval ocidental no segundo período do meu curso de Licenciatura e Bacharelado em História, pela professora que logo se tornaria minha orientadora de Monografia e é ainda hoje minha orientadora no Mestrado.
Voltando de onde havíamos começado, o próprio livro Carlos Magno de Jean Favier foi-me muito útil ainda na graduação em História... quando, por ocasião de uma prova sobre período carolíngio fui perguntar a professora qual o parecer dela sobre a obra ela disse-me que se eu havia lido o livro inetiro, não necessitaria estudar para aquela prova...

Curisosos e fascinantes são os caminhos pelas quais nos conduz a Providência do Bom Deus! Essa pequena reflexão é também uma ação de graças pelo auxílio Divino que pôs em mim não só o gosto apaixonado e motivador pela História como também tem me concedido, não obstante minha pequenez, as graças necessárias para continuar exercendo o ofício da pesquisa e divulgação do conhecimento histórico em toda a sua riqueza e beleza. Ao pensar nisso, sinto-me partícipe daquela alegria e convicção de Hugo de São Víctor acerca da beleza, utilidade e nobreza dos conhecimentos das várias áreas, que ele tão eloquentemente expôs em seu Didascalion.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Breve explicação sobre o sentido do Apocalipse

"[...] segundo os melhores estudiosos, o Apocalipse é um texto com sentido para aquela época em que foi escrito (cristianismo primitivo, época das grandes perseguições e mártires), para todas as épocas (a batalha entre o bem e o mal continua em todos os tempos) e como profecia sobre o Juízo Final (com o conseqüente final dos tempos). É acima de tudo um livro de consolação para os que vivem a fé em Cristo, é um livro da permanente vitória da Igreja, mesmo que em meio a contradições e a aparentes derrotas, é o livro da vitória final." (Pe. Manoel Augusto dos Santos)

sábado, 2 de junho de 2012

Evento sobre Ciência e Fé em Curitiba no dia 16/06!

Segue abaixo o convite com os dados sobre o evento "Ciência e Fé: a ação do Cristianismo ao longo dos séculos" que será realizado na Escola do Bosque (Rua Mateus Leme, esquina com a Rua José Korman, nº 4248, Bairro São Lourenço, Curitiba-PR):


quinta-feira, 26 de abril de 2012

512 anos: Uma Errata sobre a 1ª Missa no Brasil


Quase todos nós ao ouvirmos falar da primeira Missa celebrada em território brasileiro imediatamente trazemos à nossa mente a imagem imortalizada pela tela de Victor Meirelles de 1860 e atualmente exposta no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. A pintura, de estilo romântico, representa os indígenas e portugueses assistindo a uma Missa celebrada pelo Frei Henrique de Coimbra, acolitado por um outro frade, diante de uma grande cruz de madeira armada junto do altar da celebração. Por ocasião dos 512 anos da celebração da primeira missa no Brasil, comemorado hoje, dia 26 de abril de 2012, essa imagem está sendo compartilhada nas redes sociais para relembrar o evento. Contudo, a tela de Meirelles retrata na verdade, a segunda Missa no Brasil, celebrada dia 1º de maio. Como assim?!
No dia 26 de abril de 1500, os portugueses celebraram a primeira missa no Brasil, mas na ilha da Coroa Vermelha, uma ilhota que já não existe mais. Era Domingo da Oitava de Páscoa, e a Missa foi celebrada de forma cantada, sobre um altar montada debaixo de um dossel, assistida por cerca de 1000 homens da esquadra de Pedro Álvarez Cabral. Na praia do continente, cerca de 200 indígenas acompanhavam de longe a cerimônia. 

"Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. 
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar
pé.
Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta."(Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rey Dom Manuel I de Portugal, Porto Seguro, 1º de maio de 1500. Os grifos são meus)

O motivo desta celebração ter sido mais afastada foi provavelmente de que o caítão não se sentia seguro de mandar celebtrar a liturgia no continente por ainda não ter contatos suficientes com os nativos da terra.
Foi só na sexta-feira, 1º de maio, que o Frei Henrique de Coimbra celebrou Missa solene diante da cruz de madeira plantada na terra da praia de Porto Seguro, a qual assistiu toda a esquadra e uma grande quantidade de indígenas que se juntaram para observarem a cerimônia.

"E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.
Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!
Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.
Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor. Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.
Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer." (Carta de Pero Vaz de Caminha)

Fica assim, desfeito o engano. A primeira missa no Brasil foi celebrada em um Domingo, dia 26 de abril, na ilhota da Coroa Vermelha. O que Victor Meirelles representou em seu quadro de 1860 é a primeira Missa celebrada em terras continentais do Brasil, na sexta-feira, 1º de maio de 1500. Nada disso, contudo, anula a memória deste dia, em que comemoramos a primeira Missa celebrada em terras brasileiras, onde por singular graça e sagrado privilégio, nossa Pátria nasceu sendo oferecida a Deus junto com o Santo Sacrifício de Seu Filho e Senhor Nosso, Jesus Cristo.
Brasil: Terra de Santa Cruz!

SAIBA MAIS:
KUHNEN, Alceu. As Origens da Igreja no Brasil: 1500 a 1552.Bauru, EDUSC, 2005.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Aniversário de 7 anos de pontificado de Bento XVI!

Há 7 anos atrás, em 19 de abril de 2005, a Cristandade rejubilava com a fumaça branca da Capela Sistina e as palavras pronunciadas pelo Cardeal decano, Jorge Arturo Medina Estévez: "Anuncio-vos com grande alegria; já temos o Papa: O Eminentíssimo e Reverendíssimo senhor Dom Josef Cardeal da Santa Igreja Romana, Ratzinger que adotou o nome de Bento XVI!" O anúncio foi seguido pela aparição do tímido Pontífice, já com o solidéu branco e a estola papal, que pronunciou um breve e célebre discurso:

"Amados Irmãos e Irmãs,
Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor.
Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações.
Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está connosco. Obrigado!"

Como recordar é viver, segue abaixo o vídeo deste maravilhoso momento de alegria para a Igreja que hoje celebramos. Rezemos hoje de forma especial por nosso querido Papa para que Deus lhe dê a fortaleza, sabedoria e prudência necessária para apascentar o rebanho de Cristo!




quarta-feira, 18 de abril de 2012

Pode a História ensinar-nos algo?

Historia magistra vitae - "História, mestra da vida" - disse o famoso orador e homem público da antiga República Romana, Marco Túlio Cícero (De oratore, II, 9). Essa frase resume uma concepção muito cara aos antigos acerca do caráter propedêutico e exemplar da História humana. Tão forte era essa concepção, que o modo de escrever a História dos antigos gregos e romanos era o que Eric Auerbach denominou de estilo "retórico-moralista": os historiadores a partir de seu relato traçavam juízos acerca dos atos e dos indivíduos relatados. Contudo, esse modo de fazer História dos gregos e romanos levava em conta mais fatores políticos e a vida dos homens notáveis da sociedade. Com as mudanças na historiografia ao longo de muitos séculos, a História passou a valorizar outros aspectos da sociedade (como o quotidiano, outros grupos sociais, práticas religiosas, hábitos culturais, etc) e cada vez mais ressaltou a imoportância dos contextos históricos de cada época, local e cultura. Até aqui, um resumo muito canhestro das mudanças na concepção de História (Historiografia nunca fora meu ponto forte nos tempos da faculdade de História...).
É verdade que os contextos culturais e as circunstâncias mudam frequentemente na História humana, entretanto, existem fatores que são comuns a todo ser humano, posto que possuímos a mesma natureza humana. Os homens que nos precederam foram de carne e osso como nós. Tinham as mesmas faculdades humanas do que nós: inteligência, vontade e sensibilidade. Em todas as épocas os seres humanos experimentaram o sofrimento, júbilo, os prazeres, os vícios e as virtudes... 
Certa vez ouvi na faculdade uma afirmação de que a História não poderia servir de exemplo, posto que, segundo o autor da afirmação, "ninguém aprende com os erros dos outros". É bem verdade que aprende-se muito mais fácil com a experiência própria, quando se experimenta as vicissitudes da vida na própria pele, mas é também verdade que podemos aprender com a experiência alheia, com os exemplos que nos são contados ou que vivenciamos, com os conselhos que nos dão. Trata-se, contudo, de um ato livre, responsável e consciente: percebermos e aceitarmos o ensinamento que a experiência alheia nos mostra. Isso é certamente mais difícil do que a experiência própria, pela qual aprendemos "na marra".
Certamente não podemos pelo simples ensino da História impedir que os homens repitam os erros do passado (muitas vezes julgando estarem fazendo uma grandiosa novidade...) ou repitam os feitos notáveis, mas podemos, individual e conscientemente, aprendermos com os exemplos de outras épocas (tendo o discernimento para compreender as eventuais diferenças contextuais e circunstanciais) tal como podemos aprender com a experiência que nos é transmitida por nossos familiares e pessoas próximas. Aliás, não é a História um grande conjunto de experiências pessoais? Não é a História Sacra narrada nas Escrituras um compêndio de bons e maus exemplos?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Resumindo a Inquisição


Primeiramente é errado falar em "Inquisição" no singular, pois houveram diversas e distintas inquisições ao longo da história.

I- Os Padres da Igreja sempre defenderam que os hereges não deveriam ser mortos por serem hereges, por crerem diferente. De fato, no Império Romano cristão não haviam perseguições oficiais de morte aos hereges. Contudo, os grupos heréticos que atentassem contra a Ordem pública e social, sofriam as penas aplicadas pelo poder público. Nesse sentido que Santo Agostinho, bispo de Hipona, mesmo sendo contra a morte dos hereges, reconheceu necessária a execução do herege Prisciliano porque este perturbava a Ordem pública. No mais, os membros heréticos eram apenas afastados das igrejas e seus clérigos depostos de suas jurisdições e cargos.

II- É fundamentalmente a partir do século XI que surge na Cristandade ocidental as primeiras aplicações de penas de morte contra a heresia. Lê-se que nesse por volta dessa época o Rei Roberto I, o Piedoso, da França mandou queimar alguns indivíduos por causa de suas crenças heréticas. Por volta dessa época iniciam-se as investigações dos membros acusados de heresia. A existência ou não de heresia nos acusados competia à averiguação e juízo dos Bispos diocesanos, que tinham bastante autonomia nesses processos.

III- É também nesse século XI que surge no sul da França a heresia dos cátaros ou albigenses. Uma heresia que doutrinariamente pregava basicamente o dualismo maniqueísta: o Deus bom criara o espiritual e o Deus mal criara o material. Consequentemente rejeitavam a doutrina da Encarnação do Verbo de Deus e condenavam o matrimônio e a reprodução humana (haja vista que esta perpetuava a matéria). Os cátaros conseguiram grande influência sob a sociedade do sul da França, conseguindo mesmo reunir concílios e receber apoio de diversos senhores nobres locais, principalmente na passagem entre os séculos XII e XIII. Em 1184, o Papa Lúcio III emite o decreto Ad Aboldendam conclamando os príncipes seculares a combaterem os hereges em seus territórios. Após a tentativa de envio de missionários cistercienses e da conclamação de várias cruzadas contra os cátaros, o Papa Inocêncio III envia São Domingos de Guzmão e outros frades dominicanos como "inquisidores da fé". Estes realizariam o papel dos bispos no juízo e inquirição das heresias na qualidade de delegados representando o Papado. O Catarismo é um dos primeiros movimentos heréticos que assume uma natureza de contestação à ordem social, um dos primeiros movimentos de caráter notadamente violento entre os hereges. A Igreja via-se na necessidade de defender seu rebanho. Também os poderes seculares viam que era hora de agir com mais firmeza.

IV- Em 1231, o Papa Gregório IX instituiu oficialmente o Tribunal da Santa Inquisição, institucionalizando, organizando e regulamentando o esquema de tribunais eclesiásticos formados por delegados papais como havia instituído Inocêncio III anteriormente.

V- A Inquisição tratava-se de um tribunal eclesiástico, composto por clérigos e religiosos (embora em alguns períodos tenham havido inqusidores leigos também) com jurisdição unicamente sobre os batizados católicos. Buscava investigar casos de heresia dentro da Igreja, principalmente os heresiarcas (hereges que difundiam e propagavam suas heresias). Tratava de impor as penas espirituais (penitências, excomunhões, interditos), enquanto nos casos mais graves entregava os réus ao braço secular que aplicava as penas físicas e materiais (confisco de bens, demolição da casa ou morte). O esquema montado pelo tribunal era centrado na busca da confissão do réu e seu arrependimento, contrário ao sistema mais comum nos meios seculares da época, onde havia o chamado "duelo judiciário" (as duas partes duelavam e a parte vencedora do dito duelo era automaticamente a vencedora da causa jurídica). Mesmo com a autorização do uso da tortura (feita por pessoas enviadas pelas autoridades seculares) pelo Papa Inocêncio IV na bula Ad Extirpanda, esta era limitada em seu tempo e em suas formas (proibia-se mutilações, fraturas e derramamento de sangue), obrigando também sempre a presença de um médico nas sessões. Mesmo assim, o método mais utilizado para obter a confissão dos réus era o interrogatório (os manuais de inqusidores ensinavam a obter confissões apenas mediante o desenrolar da conversa com o réu).

VI- Os teólogos justificavam a utilização de penas físicas aos hereges não em virtude de suas crenças (pois a Igreja sempre considerou que não se pode converter à força), mas em virtude do perigo de que eles levassem outros a crerem em suas heresias (vide a argumentação de São Tomás de Aquino) e também em virtude de suas ações violentas de perturbação da ordem, o que dava ao poder secular pleno direito de agir.

VII- A Inquisição não autou em toda a Europa na Idade Média. Sua ação limitou-se mais à França, Itália, Sacro Império Romano (Alemanha, Áustria, Bohemia, etc) e Aragão. No final do século XV, o rei Fernando II de Aragão (que havia unido seu reino aos reinos de Castela e Leão mediante seu matrimônio com a rainha castelhana Isabel I) conseguiu do Papa Sixto IV a instituição de um Tribunal inquisitorial no restante da Espanha. Este era chefiado por um Inquisidor-geral, nomeado geralmente pelo rei (lembrando que a Inquisição papal tinha seu próprio Inquisidor-mor, nomeado pelo papa). Em Portugal, no século XVI, o rei D. João III obteu semelhante instituição em Portugal. Estes dois tribunais mais tarde acabaram se transformando em instrumentos de favorecimento do Absolutismo de seus monarcas, desviando-se do fim original.

VIII- Com o Concílio de Trento em fins do século XVI, o Papado reorganizou a Inquisição papal, agora chamado de Tribunal do Santo Ofício. Mesmo após o abandono dos poderes seculares na ação inquisitorial (e a abolição das inquisições em Portugal e Espanha no século XIX), o Santo Ofício continuou trabalhando na defesa da ortodoxia católica, estabelecendo as sanções e penas espirituais, mas agora não era mais um tribunal eclesiástico, mas um discatério da Cúria Romana. Paulo VI mudou o nome desse discatério para Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.

IX- Devemos por fim entender a Inquisição dentro de seu contexto histórico (e não estou defendendo o erro historicista, pois falo no âmbito da práxis e não no âmbito doutrinário). A Inquisição foi uma ação conjunta da Igreja e dos poderes seculares (em o que hoje entenderíamos por Estados confessionais, frise-se) na tentativa de conter o avanço das heresias entre os membros da Igreja e de combater os movimentos heréticos de caráter violento. Foi pois uma tentativa de defender a fé e preservar a ordem pública, entendida dentro das ações e mentalidades próprias àquele contexto.
Certo é porém, que a Igreja nunca ensinou que se devesse converter as pessoas pela força (embora alguns príncipes cristãos o tenham feito - se por zelo desmedido ou interesses desonestos, não o sabemos). A Igreja não erra ao ensinar sobre fé ou moral, mas seus membros erram muitas vezes. Os papas sempre combateram os abusos dos maus inquisidores (pois houveram também inquisidores santos) e recentemente o Papa João Paulo II pediu perdão pelos erros dos membros da Igreja cometidos ao longo da História.
A Inquisição foi algo necessário para seu tempo, mas não encaixa-se mais (ao menos com era feita e estruturada na época) para os tempos atuais. Pois, embora as verdades de fé sejam imutáveis, a ação pastoral da Igreja muda conforme os tempos, lugares e necessidades. A pastoral preconizada pelo Concílio Vaticano II visa trazer os homens à verdade à unidade católica mediante o diálogo, embora continue admitindo-se o combate aqueles movimentos sectários e religiosos que ameaçem o convívio e a paz social, como os fanatismos e terrorismos.

Bibliografia consultada:
FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo: Perspectiva, 2005.
GONZAGA, João Bernardino. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993.